Desenhando

Quando digo muito tempo

(como “todos os dias”)

Quero dizer pouco espaço

Como nenhum espaço

O endereço permanente do teu hálito

Na raiz dos meus cabelos.

Sal

Existe uma camada de sal endurecida recobrindo a minha pele.

Quando espasmos acordam peças órfãs dos meus músculos na direção de algum sol e algum derretimento, as pedrinhas se soltam e cobrem o chão todo

Um rastro de cristal

Que derrete na boca e não na sua mão.

Rascunho de uma receita de coração

Quanto mais rosada a pessoa mais lascado o coração dela.
O sangue se escapa pelas frestas e se infiltra até chegar na pele.
O coração é lasqueado por forças vindas de todas as direções, nunca por pessoas específicas.
A força do chute na bunda é uma das que chega mais rápido no coração e ele chega a ficar parado por semanas e meses e até anos, dependendo do quanto o dono do coração estava com ele aberto esperando carinho ou coisinha.
A dor de cotovelo cozinha o coração em água morna por isso o coração fica macio mas insosso.

#chateada

Se hoje acordei e pensei e senti e determinei que estou deprimida
Tenho cabelos de mulher deprimida?
Pés?
Casa?
Lençóis?
Tudo tem que combinar direitinho: lixeira deprimida, ventilador deprimido, calor deprimido, prédio deprimido.
As olheiras, deprimidíssimas, não são as de samba e amô.
A risada, deprimida.
Os passarinhos voam pesados e certamente não estão muito contentes.
O pão, até chorando está, olha as gotinhas no vidro do forno!

Casa

Quanto tempo leva o Google maps pra começar a registrar um lugar como casa?
E um coração?
A minha casa é onde está amassado o mais recente naco de papel higiênico que usei pra limpar o ranho do choro da última coisa que me emocionou.

Beforetaste

There’s something of a beforetaste hovering about a story told one two many times.

You tell it and you tell it in the pregnant hope that you’ll manage to juice some shard of sense from floating temporal order.

You cloudly dream of using said shard to at least carve some artful ding out of moldy past, something only you could’ve come up with, yet
you only end up with the same parade of dominoes that won’t ever flow-fall: I am, I am not, I want to, I want not to, It aches to be, It aches not to be, let me live, let me die

THE HOPE OF NOT BEING SOME KIND OF GHOST

HOW COME YOU’RE STILL THERE

BUMPING INTO OUR OLD THINGS?

TILES

BEER

CHOCOLATE

COVERS

(whenever I had to make you a shopping list, I secretly tried to make all words start

with the same letter

coke

cream

cherry

caring)

AND YOU’RE TRYING NOT TO BE NOISY
(CLANKITY CLANK)
BUT I CAN FOREVER HEAR YOU
RELENTLESSLY PLAYING MY BROKEN GUITAR
EVER SO GENTLY
LIKE I COULD NEVER SING
EVEN THROUGH MY SCREAMING FITS
I CAN FOREVER HEAR YOU
YOUR BONY SHOULDERS
THEY FORMED A POOL OF SOAP AND WATER
ONE KISSED, THEN THE OTHER
ONE LEFT, THEN THE OTHER
I had to repeat to myself therearenoghoststherearenoghosts
Ghosts.have.no.shoulders.no.shoulders.no.shiny.eyes.no.pitch.black.perfect.solidness